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Eliseu Alves

“Conhecereis a verdade e ela vos libertará”. O dito é bíblico e se refere à verdade absoluta. Acrescente-se, a ignorância, ou a má fé, pior ainda quando lastreada em ideologias e no pedantismo dos que julgam donos da verdade, é mãe de todas as incompreensões que nos cercam, em qualquer campo, e, especialmente, na agricultura.

Estarei falando de um homem com mais de meio século de lutas em favor de uma agricultura racional. Como agricultor, se destacou por fazer o melhor, apoiar pesquisadores, como o saudoso professor Geraldo Gonçalves Carneiro, custeando suas pesquisas em sua fazenda, por ser generoso com os seus colegas, compartilhando seus conhecimentos com todos que o procuram, e finalmente, por preparar a geração familiar que o sucederá. Como homem público, batalhou por fazer prevalecer a verdade e dissipar as trevas da ignorância. Um mestre da retórica, mas aquela fundamentada em dados e no conhecimento.

Curioso, sem limites. Por isto, prestigiou as instituições de pesquisa, promoveu os bons pesquisadores e equipou a CNA com uma juventude competente, profissional e operosa. É dele a afirmação, “sem dados e sólida análise ninguém mudará a opinião dos economistas do governo e nem ganhará causas nos tribunais, a despeito da competência dos advogados”. Chegou numa reunião, e colérico exclamou: “chega de papo furado”! Sendo mineiro e bem educado, não quisera ele dizer que se cansara dos reclamantes mal fundamentados?

Sua liderança se desenvolveu numa época de profundas transformações na agricultura, as quais ajudou a acontecer.

Aquele foi o mar revolto que teve de singrar, no qual muitas lideranças naufragaram, famílias tradicionais perderam a fortuna, outras se enriqueceram, as reivindicações trabalhistas se aguçaram, a luta pela posse da terra ganhou o grupo e as massas, com severa ameaça ao direito de propriedade, a questão ambiental entrou pelos desvãos da ideologia, uma nova ameaça ao direito de propriedade, e o governo extrapolou na avaliação da dívida dos agricultores.

É neste mar tormentoso que Antônio Ernesto travou suas mais difíceis batalhas, muitas ainda indefinidas quanto ao vencedor. Firme defensor da economia de mercado, suas posições nestas questões espinhosas defendem a prevalência da racionalidade do mercado, o respeito aos contratos, e por isto,lutou com todas as armas contra a irracionalidade do governo nas questões da dívida dos agricultores, agrária e ambiental. Juntou números, buscou evidências históricas, aliou-se ao melhor saber jurídico para lastrear suas posições em favor da classe. E foi vencedor muitas vezes. Amargou derrota em algumas batalhas, mas não perdeu a guerra pela racionalidade. Só a má vontade não vê que estamos progredindo nestas questões, embora muitos se desesperem em face da lentidão do caminhamento para uma solução.

Temos que aprender a ter paciência e a compreender que a persuasão rende mais que o conflito, e que ela, a persuasão, tem que se fundamentar na boa lógica e, factualmente, ser inquestionável. Não são estes os fundamentos da liderança de Antônio Ernesto?

A industrialização do Brasil modernizou nossa sociedade, urbanizou a população – somos 82% urbanos – substituiu as lideranças rurais para colocar no poder as urbanas. São inúmeras as repercussões na agricultura. A industrialização é a base do desenvolvimento do moderno agronegócio. Mas, a repercussão mais dramática foi sobre o trabalho.

Em conseqüência da competição acirrada que a industrialização trouxe, o custo da mão-de-obra elevou-se. Generalizou-se o salário monetário e quebrou-se o vínculo familiar, quase sempre paternalista, que existia entre patrões e trabalhadores. Pelas cidades, a legislação trabalhista chegou aos campos. E os conflitos trabalhistas se generalizaram e exacerbaram, e as soluções foram desvantajosas aos patrões, despreparados que estavam para enfrentar a nova realidade. A legislação trabalhista contribuiu para acirrar o êxodo rural, e ele ajudou a mudar o endereço dos brasileiros, antes preponderantemente nos campos, hoje nas cidades. E os seus efeitos ainda repercutem na CNA e associados, e quão valiosa foi a contribuição de Antônio Ernesto na solução dos conflitos e em fazer a sociedade compreender que, entre os injustiçados, encontram-se os patrões.

Do lado positivo, revela salientar que as mudanças das relações patrão-empregado fizeram os proprietários entenderem o custo de oportunidade da mão-de-obra, antes mascarado pelas relações familiares que perduraram por séculos.

Os conflitos, a competição da indústria e dos setores de serviços e a percepção do custo de oportunidade do trabalho mudaram a mentalidade dos produtores em favor da mecanização da agricultura. Pressionaram o governo e obtiveram financiamentos a taxasde juros e prazos convenientes. A mecanização da agricultura, a despeito dos efeitos negativos na dívida dos produtores, foi um fator um fator de modernização importantíssimo. Ela deu sentido e viabilizou as tecnologias do tipo poupa-terra, fundamentou o plantio direto e, recentemente, a agricultura de precisão. A mecanização eliminou postos de trabalhos, é verdade, mas dela emergiu uma agricultura respeitosa ao meio ambiente, que remunera melhor e exige menores sacrifícios dos trabalhadores remanescentes.

Outro envio importante, ainda na esteira da legislação trabalhista, é o SENAR. Luiz Machado e eu trabalhamos em estreita sintonia com Antônio Ernesto para definir a filosofia e o modelo jurídico. Fundamentos: a descentralização para as federações, sem burocracia, infra-estrutura de prédios, o mínimo de pessoal. As equipes deveriam ser contratadas para executar projetos. Findos os mesmos, cessam os vínculos trabalhistas. O objetivo do SENAR é treinar trabalhadores rurais e agricultores familiares. Como Antônio Ernesto foi determinado em defender o projeto do SENAR no seu grupo de liderados, pela persuasão e convencimento, sem se valer da autoridade formal que o cargo lhe dava.

Pelo que sei, o SENAR é um sucesso, e tenho muito orgulho de ter participado do seu nascimento.
Antônio Ernesto tem de estar orgulhoso pelo desenvolvimento do agronegócio, pois participou ativamente da elaboração da política agrícola que lhe tem dado suporte, tem sido um aliado fiel na defesa de seus interesses, nos tribunais, no governo e nos foros internacionais, e, ainda, ajudou a criar, no Congresso Nacional, uma forte bancada de apoio às aspirações dos produtores.
O agronegócio participa em 33% do PIB, gera 42% das exportações e emprega 37% da população economicamente ativa. Pela modernização da agricultura, do início da década de 70 até 2002, os preços dos produtos que alimentam os mais pobres caíram 30%, pelo menos. Como mostrou o IBGE, os índices de fome se reduziram. No final, a comida passou por uma revolução silenciosa, e representa o maior esforço de democratização, jamais visto no Brasil, real e não retórico.

O agronegócio descentralizou o crescimento econômico para as cidades do interior, de menos de cem mil habitantes. Realçou a importância da agricultura. Pesquisa da qual Alberto Duque Portugal e eu participamos mostrou que 10% do crescimento do PIB até a porteira traz no PIB urbano das cidades do interior um acréscimo de 9%. E assim, ficou claro como entrelaçados estão, no interior, a agricultura e a urbis.

A ciência, a tecnologia e os investimentos em infra-estrutura trouxeram a agricultura do Sul, Sudeste e Nordeste para o Centro-Oeste e região Amazônica, nos limites com os cerrados, principalmente. Isso representou uma enorme expansão da agricultura no território nacional, em menos de 35 anos. O Centro-Oeste, antes muito pouco importante, responde por mais de 39% do abastecimento. A expansão da área cultivada, além de muito importante para acrescer o excedente agrícola, diminuir o risco da agricultura na dimensão nacional, e para baixar ou estabilizar o preço da terra e, portanto, os conflitos agrários. Não tivesse ela ocorrido, a violência nos campos teria atingido níveis colombianos.
Homem de percepção aguçada, Antônio Ernesto deve já ter pensado sobre o que o futuro reserva a CNA. Mortal, de vôo mais baixo, mesmo assim atrevido, me permito adivinhar algumas linhas de seu futurismo. A questão internacional, representada pelos subsídios dos países ricos à agricultura e pela visão deles sobre a agricultura da Amazônia, estará conosco pelos próximos dez anos. Como exportar, sempre mais é fundamental à sobrevivência e ao desenvolvimento do agronegócio, a questão internacional, por esse motivo, deverá ser a maior demandante dos serviços da CNA.
A questão trabalhista vai esmaecer ainda mais. Mas, ainda vale lutar por leis mais específicas para a agricultura, de modo que a decisão de mecanizar deixe de ser, exclusivamente, uma opção em função dos caprichos da legislação trabalhista.

Como introduzir o mercado como solução dos conflitos ambientais e da reforma agrária? Como mudar a cabeça do governo nesta área, quando os seus representantes atuais, mais do que não acreditarem, têm reservas ideológicas, todas elas superadas no mundo inteiro, contra as soluções de mercado? É sabido que o mercado falha, mas o governo falha ainda mais, quando o substitui. A boa lógica e senso comum recomendam que o melhor, nestes casos, é a cooperação entre a iniciativa particular e o governo. Finalmente, a luta por uma política agrícola que estimule a agricultura, valorize o cumprimento de contratos, escritos ou não, é a vida da CNA, tem sido sua vida e continuará assim enquanto ela existir. Antônio Ernesto viu e acertou: Competência e flexibilidade para contratar consultoria são necessárias para que a casa lidere as discussões sobre política agrícola.

A CNA é hoje outra, sintonizada no Brasil e no mundo inteiro voou a imaginação deste líder ímpar. Abençoada é a nação que deu guarida e estimulou o seu trabalho.

Eliseu Alves
Pesquisador da Embrapa e assessor do diretor-presidente

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